A Campanha de Jafanapatão em 1591 foi uma operação militar levada a cabo no Sri Lanka, em que os portugueses conquistaram o reino de Jafanapatão e colocaram no trono o rei Ethirimana Cinkam.
Contexto Jafanapatão era um reino Hindu situado no norte da ilha do Ceilão, hoje Sri Lanka. A morte do rei Sankili em 1561 deu azo a um período de guerra civil e disputa pelo trono mas em 1582 o segundo filho de Sankili, Puvirasa Pandaram, logrou tomar o poder. O rajá de Jafanapatão intitulava-se "rei dos reis" pela sua arrogância e confiança. Aliou-se ao rei de Cândia e perseguiu os seus súbditos que se tinham convertido ao catolicismo e planeou um ataque à fortaleza portuguesa de Manar. Para isto pediu auxílio ao célebre Cunhale Mercar, almirante do Samorim de Calecute, que enviou uma frota comandada pelo seu sobrinho Cutimuza. O capitão de Manar era Nuno Fernandes de Ataíde, que avisou Goa dos preparativos do rei de Jafanapatão e, apesar de ter oitenta anos, ou quase, era enérgico, de grânde ânimo e dispunha de 500 soldados. A 3 de Setembro de 1591, Puvirasa Pandaram atacou o forte à cabeça das suas tropas mas, apesar de ter guerreiros armados com espadas de duas mãos e mosquetes, foi rechaçado. O rei não se deixou desanimar, pois aguardava a chegada da frota de Cunhale Mercar. Seguiu-se um ataque nocturno mas este teve o mesmo resultado que o anterior. O rei descarregou as culpas do falhanço nos paravas e outros povos que habitavam a região mas que se recusavam a prestar-lhe obediência. Depois de lhes dispersar o gado, retirou-se mas ainda perdeu 22 navios na Ponta de Madre de Deus, capturados por Nicolau Rodrigues que dispunha apenas de uma fusta. Por então já tinham chegado a Goa ordens para conquistar a ilha do Ceilão. Quando o vice-rei Matias de Albuquerque recebeu de Nuno Fernandes de Ataíde notícias acerca das perseguições do rei de Jafanapatão, do ataque a Manar e de que a frota de Cunhale Mercar se encontrava em actividade e também que o rei Rajasinha de Ceitavaca se preparava para atacar Colombo, decidiu enviar para o Ceilão uma expedição de vinte navios de remos, composta provavelmente por uma ou duas galés e o resto galeotas ou fustas, comandada por André Furtado de Mendonça. Levava ordens para destruir a armada do Cunhale e depor o rei de Jafanapatão devido à ameaça que representava para a fortaleza de Manar.
A campanha A frota de André Furtado de Mendonça encontrou ventos contrários na Costa de Malabar. Ao largo de Calecute, André Furtado de Mendonça afundou duas "naus de Meca" grandes navios mercantes que faziam a ligação entre a Índia e o Médio Oriente pelo Mar Vermelho, e capturou outra. Ao chegar a Colombo, André Furtado de Mendonça negociou uma reconciliação com o rei Rajasinha de Ceitavaca, que lhe forneceu um contingente lascarins. Na cidade, André Furtado recebeu notícia de que a frota do Cunhale se encontrava no rio de Cardiva, comandada por Cutimuza. Dispunha de uma frota de 14 a 22 navios de remo, entre galeotas e fustas, com os quais atacava a navegação portuguesa na Costa do Malabar e planeava um ataque às fortalezas de Colombo e de Manar. Na foz do rio de Cardiva André Furtado combateu contra a frota inimiga e derrotou-a mas Cutimuza fugiu a nado. Ao desembarcarem depois em Manar, as tropas de André Furtado de Mendonça foram recebidas em triunfo por 500 soldados e 6000 paravas e cáreas, tendo chegado mais 350 soldados três dias mais tarde. A 26 de Outubro de 1591, os portugueses partiram de Manar com 1400 soldados e 3000 lascarins em 243 embarcações pequenas.
Os guerreiros tâmules de Jafanapatão encontravam-se à espera dos portugueses junto à boca do estreito de Jafanapatão, a que os portugueses davam o nome de Rio da Cruz. A 27 de Outubro 150 soldados e 200 lascarins desembarcaram em Colombothurai sob a protecção do fogo português e capturaram uma bateria de artilharia inimiga. O exército luso-cingalês avançou então por terra ao longo da costa, capturaram grande número de fardos de arroz e acamparam para passar a noite. A 28 os portugueses prosseguiram a marcha, fortalecidos por Frei Francisco do Oriente, que levantara uma cruz e assegurara os soldados de que a Virgem Maria aparecera a dois deles no dia anterior e prometera-lhes a vitória. Os lascarins avançavam na dianteira sob uma bandeira verde com um elefante, comandados por Wikramasinha e em Chunguinaynar entraram em combate com os tâmules, comandados por um príncipe a quem os portugueses chamavam de Príncipe Gago. Os tâmules dispararam grande número de arcabuzes e lançaram grande número de flechas mas os lascarins e os portugueses não vacilaram, o Príncipe Gago tombou em combate e os guerreiros tâmules foram derrotados. Por volta das 10 da manhã os portugueses aproximaram-se da cidade de Nallur, a capital do reino, que se encontrava bem fortificada e guarnecida. Os portugueses atacaram as defesas da cidade e obrigaram os defensores a recuarem para o casario mas o rei Puviraja Pandaram mandou o seu general contra-atacar, enquanto ele preparava-se para fugir. O general procurou reorganizar as suas tropas e entre dois templos os portugueses foram confrontados pelos adargueiros e piqueiros da guarda real, que juraram derrotar os portugueses ou morrer. Combateram com notável valor mas foram totalmente massacrados. Num dos templos os portugueses encontraram o príncipe Erithmana Cinkam ferido e tombado mas o soldado Simão Pinhão protegeu-o de uma multidão que pretendia matar o príncipe para o espoliar das suas jóias. Ao receber a notícia da captura do príncipe, André Furtado de Mendonça apressou-se ao local. Simão Pinhão entregou-o ao capitão português e o príncipe implorou por piedade prostrado aos pés do capitão português. André Furtado entregou-lhe o seu colar, a sua capa, um chapéu com uma magnífica pluma e uma espada guarnecida de prata. Depois partiu em perseguição do rei Puviraja Pandaram. Os portugueses causaram pesadas baixas aos seus inimigos ao avançarem e noutro templo capturaram o rei, que foi executado e a sua cabeça exposta durante alguns dias numa lança.
Rescaldo
No palácio real de Nallur os portugueses capturaram um saque enorme. Entre os prisioneiros de guerra contava-se grande parte da realeza do reino incluíndo a rainha-mãe, outra rainha com os seus cinco filhos e duas filhas, a mulher do Príncipe Gago e os seus dois filhos e sete príncipes, entre outros. Celebrada a vitória pelos portugueses com acções de graças, André Furtado de Mendonça emitiu uma proclamação em nome do rei de Portugal em que permitia que os civis voltassem às suas casas e ofícios, ao passo que os modeliares (comandantes) foram convocados a aparecer diante de si para um novo juramento de lealdade. Reunidos em conselho, os portugueses decidiram não anexar o reino dada a devoção dos seus habitantes pela família real e instauraram o príncipe Erithmana Cinkam como rei de Jafanapatão mediante termos razoáveis. 880 mercenários badagas e muçulmanos capturados foram executados e todos os navios no porto destruído menos dois para serviço do rei. Uma guarnição de 100 soldados portugueses e 200 lascarins comandados por Tristão Golayo de Castelo Branco foi deixada para trás para zelar pela segurança do rei. Um certo número de navios foram destacados para Colombo para reforçar a praça contra um possível ataque de Rajasinha.
O rei Erithmana Cinkam concedeu liberdade aos franciscanos para construir igrejas no seu reino e levar a cabo a missionação entre os seus súbditos. Começaram por construir uma modesta hermida no local de desembarque de André Furtado de Mendonça e ali se mantiveram até o rei lhes der oferecido uma casa que pertencera a um dos seus cortesão. Foi consagrada em nome de Nossa Senhora da Vitória e serviu de sede aos franciscanos em Jafanapatão até Frei Pedro de Betancor, que fundara várias igrejas em Mantota e nos distritos dos Wanni, ter decidido construir uma casa maior perto do bairro de mercadores portugueses. Após a sua instauração, os chefes, nobres e modeliares do reino conspiraram com o rei de Cândia Wimaladharmasuriya e com o naique de Tanjor, no continente indiano, para depor o rei e colocar no trono um principe que se encontrava em Ramancor ou Rameswaran. Ao ter conhecimento disto, o rei de Jafanapatão pediu ajuda ao capitão da fortaleza de Manar, que enviou Manuel de Ataíde com um destacamento de tropas para combater a insurreição. A 26 de Outubro Manuel de Ataíde atacou um exército de mercenários muçulmanos, badagas e maravas enviados pelo naique de Tanjore que havia desembarcado em Jafanapatão e derrotou-os em Talaimannar. Após este incidente, o rei de Jafanapatão reinou em paz até à sua morte em 1617.
Ver também Campanha de Ceitavaca Ceilão Português Conquista portuguesa do Reino de Jafanapatão
Referências
