Jair Ventura: 'É ignorância pensar que o passaporte define se um técnico é melhor que o outro'

Treinador do Vitória analisa presença maciça de profissionais estrangeiros no Brasil. Crédito: Estadão

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A CBF propôs reduzir o limite de atletas estrangeiros nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro e os clubes aprovaram. Dos 40 times, 37 foram favoráveis à medida. A maioria dos dirigentes ouvidos pela reportagem concorda com o argumento apresentado pela confederação de que a medida abre espaço para atletas formados nas categorias de base.

“Quanto mais o limite de estrangeiros subiu, menos minutos sobraram para o sub-23 brasileiro”, concluiu a CBF, em estudo apresentado aos clubes para embasar a proposta.

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A CBF elaborou o relatório para sustentar a tese de que o aumento do limite de estrangeiros reduziu diretamente o espaço e os minutos jogados pelos jovens atletas brasileiros. E a maioria dos dirigentes concorda com isso, mesmo estando à frente de times cujos elencos são recheados de estrangeiros. Nenhum dos cartolas ouvidos pela reportagem discordou ou apresentou ressalvas em relação à proposta da confederação.

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Jhon Arias e Flaco López comemoram gol pelo Palmeiras, time que tem oito estrangeiros em seu elenco Foto: Cesar Greco/Palmeiras

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“O Brasil sempre foi reconhecido como um país formador mas, nos últimos anos, passou a ocupar uma posição de comprador, especialmente de jovens atletas da América do Sul. Esse movimento reduz o espaço para o surgimento de novos talentos brasileiros e inverte uma característica histórica do nosso futebol, que é de revelar e produzir craques”, avalia Alexandre Mattos, executivo de futebol do Santos, equipe com seis gringos no plantel.

“É preciso encontrar uma maneira de equilibrar esse cenário, com mais critérios na contratação”, acrescentou.

Atualmente, os clubes podem relacionar nove jogadores por partida. A partir de 2027, o número cairá pra oito até chegar a cinco em 2030, ou seja, a redução é gradual.

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“Votei a favor porque o Vitória é um clube formador. A medida incentiva a formação de atletas e esses atletas passam a jogar, a ter mais oportunidades”, opina Fábio Mota, presidente do time baiano, que tem quatro argentinos, um uruguaio e um português no elenco.

Mesmo pensamento tem o Grêmio, que considera que a medida é uma “tentativa de fortalecer o processo de formação no País”. O clube reproduz o argumento de que a regra vai “ampliar as oportunidades e o aproveitamento dos atletas de base nas equipes profissionais”.
Holandês Memphis Depay é um dos 146 estrangeiros que entrou em campo no Brasileirão Foto: Felipe Rau/Estadão
O teto de estrangeiros passou por sucessivas ampliações nos últimos anos. Subiu de três para cinco em 2014, alcançou sete em 2023 e chegou a nove em 2024, número vigente até o momento.
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“Hoje, a quantidade de jogadores estrangeiros no Brasil é exagerada”, afirma Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá. “Acho que essa é uma medida que pode beneficiar a formação, mas é importante que venha acompanhada de iniciativas que incentivem esse trabalho”.
Precisamos oportunizar esses garotos para que rendam em campo e financeiramente. O futebol nacional continua sendo um bom formador de talentos. Quanto mais atletas brasileiros atuarem nas nossas ligas internas, com identidade e formação próprias, maior e mais rápida será também a evolução do futebol no país.
João Paulo Silva, presidente do Ceará
A proposta era uma reivindicação de muitos treinadores brasileiros, segundo os quais o teto de nove estrangeiros por jogo atrapalhava o desenvolvimento de atletas revelados nas categorias de base.
Dorival Júnior, por exemplo, considera que a presença maciça de estrangeiros nos times brasileiros penaliza uma “geração inteira”. “Futuramente, pagaremos um preço muito alto. Nós não estamos percebendo isso acontecer. A Itália pagou um preço altíssimo em duas Copas do Mundo”, disse o técnico no início do ano, quando ainda treinava o Corinthians.
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Palmeiras e Flamengo querem fim de limite para transferências domésticas
O Palmeiras, que tem oito estrangeiros em seu elenco, entende que a restrição de estrangeiros vai estimular os clubes do País a aumentar o investimento na formação de novos atletas e dar mais oportunidades a jovens na equipe principal.
O clube conversa com a CBF a respeito da necessidade de a confederação criar novos mecanismos para proteger os garotos do assédio de equipes europeias e defende um ajuste na lei para que um atleta de 16 anos possa assinar vínculo de cinco anos com o time formador. Hoje, o limite é de três anos.
Flamengo tem 10 estrangeiros em seu plantel, entre eles o uruguaio Arrascaeta Foto: Adriano Fontes/Flamengo
Também discute com a confederação sobre o fim do limite de jogos no Brasileirão para transferências domésticas, medida que o Flamengo também defende.
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O presidente do clube rubro-negro, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, sugeriu abrir votação para derrubar o limite de transferências internas, mas não foi atendido. Por isso, decidiu votar contra a redução no limite de estrangeiros. Bahia e Londrina foram os outros dois times contrários à medida.
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A CBF prometeu avaliar a sugestão de Bap e deve levar o tema à votação no futuro.
Os números e argumentos da CBF para embasar a proposta
- Após 2024, com o aumento do limite para 9 relacionados, houve aumento da minutagem de jogadores estrangeiros e diminuição da minutagem dos jovens (sub-23);
- Média hoje é 40% menor que o limite (5,4 estrangeiros relacionados por jogo);
- “Até agosto, a média de estrangeiros relacionados e a média de estrangeiros que entraram em campo foram significativamente menores do que o limite de relacionados. De 430 equipes-partida, apenas 26 chegaram a relacionar 9, cerca de 6%”;
- Entre 2020 e 2026, os minutos em campo de estrangeiros acima de 23 anos aumentaram em 3,2 vezes;
- No mesmo período, os minutos em campo dos brasileiros sub-23 reduziram 59,4%;
- O total de minutos de atletas sub-23 utilizados hoje no Brasil é de 13,8%, considerando brasileiros e estrangeiros. O patamar das principais ligas europeias fica entre 28% e 38%
- “Diminuindo o limite, abre-se oportunidade para o jovem brasileiro recuperar espaço em campo”.
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