Manoela Alcântara

Legenda da foto: Trailler do filme “Dark horse”, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro Crédito:
Legenda da foto: Trailler do filme “Dark horse”, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro Crédito: · Imagem: Metrópoles

Flávio Bolsonaro é investigado no inquérito. Investigadores querem rastrear recursos ligados a Daniel Vorcaro e concluir perícias

Dark Horse: PF pede mais 90 dias para investigação sobre filme de Bolsonaro
Dark Horse: PF pede mais 90 dias para investigação sobre filme de Bolsonaro · Imagem: Source: www.metropoles.com

Kevin Lima, Manoela Alcântara

16/10/2026 19:48, atualizado 16/10/2026 19:51

Metrópoles

A Polícia Federal pediu, nessa quinta-feira (15/10), ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), mais 90 dias para o inquérito que investiga o senador Flávio Bolsonaro (PL) e suspeitas de irregularidades no financiamento de Dark Horse, a cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O prazo anterior da investigação havia terminado em 10 de outubro. Os investigadores querem esclarecer a origem e o destino de recursos ligados a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e concluir perícias sobre as movimentações financeiras e os dados de celulares.

Segundo a PF, Vorcaro teria se comprometido a aportar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões à época, na produção. Mensagens e áudios atribuídos a Flávio indicariam que o senador atuou na cobrança e no acompanhamento da liberação dos recursos.

Entre as principais pendências, de acordo com a corporação, está um pedido de cooperação jurídica internacional para obter registros financeiros do fundo americano Havengate Development Fund e da Go Up Entertainment LLC, empresa nos Estados Unidos ligada à produção.

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A Polícia Federal afirma que a medida se tornou necessária depois que a companhia recusou fornecer documentos diretamente, sem a formalização desse procedimento.

Os investigadores tentam descobrir de onde partiram os valores enviados ao exterior, por quais contas passaram e quanto efetivamente chegou à produção. Também aguardam uma perícia para confrontar as remessas com os recursos recebidos pela produtora brasileira e as despesas declaradas com o longa.

O inquérito foi aberto em 23 de julho, um dia depois de Mendonça autorizar a apuração, com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR).

A investigação é mais um desdobramento do caso Master. São apuradas suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e corrupção ativa.

Esclarecimentos

Os investigadores identificaram sete remessas da Entre Investimentos e Participações ao Havengate, entre fevereiro e setembro de 2025, que somam US$ 12,3 milhões. A PF quer esclarecer a relação desses aportes com os valores que chegaram à empresa brasileira responsável pela produção.

Uma das frentes trata de divergências nos documentos apresentados pela Go Up Entertainment Ltda. A análise identificou 20 contratos de câmbio, de junho de 2025 a abril de 2026, pelos quais a companhia recebeu US$ 2,8 milhões, equivalentes a R$ 14,8 milhões, da empresa americana.

As operações foram justificadas como empréstimos e faziam referência a um contrato de US$ 920 mil. O montante que entrou no Brasil, porém, foi cerca de três vezes maior. A PF também encontrou referências a diferentes datas de assinatura e documentos sem data.

A PF também aponta divergências no depoimento de Antônio Carlos Freixo Júnior, ouvido em 1º de outubro como colaborador, após acordo de colaboração premiada homologado pelo Supremo.

Freixo confirmou que a Entre Investimentos fez as sete remessas ao fundo a pedido de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Disse, porém, que a operação lhe havia sido apresentada como investimento em um fundo imobiliário americano e que não sabia que o dinheiro seria destinado a um filme.

Segundo a PF, uma carta-acordo apresentada pelo próprio colaborador contém referência expressa à produção cinematográfica e prevê um compromisso de US$ 24 milhões.

Para os investigadores, o documento está em “aparente contradição” com a versão de que Freixo desconhecia a finalidade dos recursos.

A polícia também questiona a origem do dinheiro usado na primeira remessa. Embora Freixo tenha mencionado recursos próprios, venda de ativos ou crédito no Banco Master, a documentação registra um depósito de R$ 12 milhões feito pela Super Empreendimentos na véspera da transferência ao exterior.

Mais pendências

Outra pendência envolve os pagamentos pela locação do Hospital Indianópolis, em São Paulo, usado nas filmagens. O contrato, de R$ 92,2 mil, previa depósitos em uma conta da RM77 Serviços Integrados, terceira empresa indicada pela locadora. Segundo a polícia, faltam comprovantes de pagamento e esclarecimentos sobre a relação entre as companhias.

Antes de novos depoimentos, a PF pretende concluir a análise dos dados de Zettel e Freixo e a perícia contábil. Entre as pessoas que ainda devem ser ouvidas estão representantes da produtora e do fundo americano.

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) informou não ter localizado registro de captação de recursos públicos ou de incentivos fiscais federais para a obra. A agência também relatou ter autuado a produtora brasileira pela realização de uma produção estrangeira no país sem a comunicação prévia obrigatória.

A Go Up e o deputado federal Mário Frias (PL) negaram ter recebido recursos de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas ligadas a ele.

Flávio Bolsonaro tem dito que sua participação se limitou à busca de investimento privado para uma obra cultural sobre o pai e negou ter dado contrapartidas aos recursos. A defesa do senador também solicitou acesso integral aos autos. No pedido de prorrogação, a PF afirmou que cabe a Mendonça decidir sobre o pedido.