Fernando Cerimedo (1981) é um marqueteiro e influencer argentino, que começou a ter destaque no cenário político sul-americano em 2018, quando, como funcionário da agência de publicidade McCann da Argentina, teria trabalhado na campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Na campanha presidencial de 2022, divulgou desinformação sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. Em 2024, foi o único estrangeiro indiciado pela Polícia Federal nas investigações da tentativa de golpe de estado comandada por Jair Bolsonaro. Desde 21 de agosto de 2026, Fernando Cerimedo está preso na penitenciária de Palmasola, na Bolívia, por tentativa de homicídio contra sua companheira grávida, Nadia Beller — uma advogada e ativista boliviana de destaque —, bem como por enriquecimento ilícito.
Ligações com os EUA Estudante de direito em Mar del Plata, aos 19 anos, Cerimedo diz ter recebido uma bolsa de estudos de Harvard (EUA), para ser atleta de triatlo. Como não dominava a língua inglesa, preferiu estabelecer-se em Porto Rico (território hispanófono dos EUA). Posteriormente, teria feito treinamentos com os Navy Seals, forças especiais da Marinha dos EUA, e um doutorado em marketing na Universidade de Phoenix, onde seu orientador teria ficado impressionado com o seu desempenho acadêmico e o levado para trabalhar na campanha de Barack Obama às primárias do Partido Democrata (o que foi desmentido por fontes que trabalharam na campanha do candidato). Cerimedo afirma ainda que trabalhou na área de Assuntos Internacionais da Casa Branca, e que teria sido enviado a vários países da América Latina na qual os Estados Unidos tinham interesses.
Marketing político De volta à Argentina, Cerimedo era diretor criativo da agência McCann, quando foi contratado para trabalhar na campanha presidencial de Jair Bolsonaro pelo filho deste, Eduardo Bolsonaro, o qual diz ter conhecido em Harvard em 2010, numa pós-graduação em comunicação política (a universidade negou que os citados tenham sido alunos da instituição). Cerimedo diz ter feito um "trabalho paralelo" à campanha oficial, e que teria entrado nela somente nos últimos 40 dias, com o objetivo de "convencer os haters de Bolsonaro, como os homossexuais". Também em 2018 criou o portal La Derecha Diario, administrado por sua mulher, Natalia Basil, o qual tem sido continuamente acusado de espalhar desinformação (Cerimedo minimiza as acusações e diz ser contra as "fake news"). Em 2019, Cerimedo começou a estruturar o seu grupo empresarial, formado pela agência de publicidade Numen, uma "academia" de cursos de marketing digital e político, cerca de 30 sites e uma empresa de segurança privada. Embora identificado com a direita política, neste mesmo ano suas atividades de militância digital levaram o kirchnerismo à vitória em La Matanza, mais populoso distrito de Buenos Aires. Segundo alega, sua mulher o fez voltar à orientação ideológica anterior, pois é "fã de Javier Milei". Por sinal, seu trabalho para Bolsonaro o credenciou para comandar a estratégia digital de Javier Milei, o "Bolsonaro argentino", eleito em 2023. Em 2020, Cerimedo foi contratado por empresários chilenos para uma campanha contra a aprovação da nova Constituição do país. A agência Numen do marketeiro divulgou então uma pesquisa de opinião, onde se afirmava que a diferença entre os votos a favor e contra a nova carta estavam diminuindo (o que contrariava as análises das demais empresas da área). Mesmo com a desinformação, o texto da nova constituição foi aprovado com 78% dos votos, mas isso deu à direita a ideia de que o resultado poderia ter sido diferente. Entrevistado após a derrota, Cerimedo disse que sua empresa era de "estratégia digital", não de pesquisas. Após a eleição de Gabriel Boric, Cerimedo teria voltado ao Chile para coordenar a campanha contra o plebiscito que aprovaria a nova carta. Desta vez, a estratégia teria dado certo, pois o plebiscito rejeitou o texto anteriormente aprovado. Contudo, fontes dos partidos de direita envolvidos na campanha, não confirmam qualquer participação direta do argentino na mesma.
Eleições presidenciais do Brasil em 2022 Novamente contratado como consultor por Eduardo Bolsonaro para as eleições de 2022, Cerimedo trabalhou ativamente para espalhar desinformação sobre as urnas eletrônicas brasileiras. Por exemplo, em uma live transmitida no YouTube em 4 de novembro de 2022, após a derrota de Jair Bolsonaro, "apresentou alegações apócrifas e falsas sobre as urnas eletrônicas para justificar o fato de o candidato do PL ter tido menos votos que Lula". Em consequência, o Tribunal Superior Eleitoral ordenou a suspensão dos perfis do La Derecha Diario Brasil no Twitter, Instagram e Telegram. Cerimedo alega nunca ter dito que havia fraude na eleições brasileiras, mas que suas afirmações mereceriam investigações. Mesmo após a suspensão, Cerimedo continuou a divulgar desinformação, como em outra transmissão a partir de um canal argentino, em 11 de dezembro de 2022, onde "voltou a questionar os resultados das urnas e espalhou mentiras sobre as eleições brasileiras". Em novembro de 2024, Cerimedo foi uma das 37 pessoas citadas pela Polícia Federal na investigação dos crimes de abolição violenta do estado democrático, golpe e organização criminosa, que levaram Jair Bolsonaro e vários de seus ex-ministros para a prisão. Todavia, não foi incluído na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), e portanto não foi a julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Campanha presidencial boliviana de 2025
Em agosto de 2025, a imprensa argentina informou que Fernando Cerimedo estaria assessorando a estratégia digital de Rodrigo Paz, candidato à presidência da Bolívia. Questionado sobre a informação, Paz disse apenas que Cerimedo havia sido professor de sua filha, Catalina Paz, na "Academia Numen" (voltada justamente para o marketing digital e político). Todavia, em outubro de 2025, depois da eleição de Rodrigo Paz, o marqueteiro afirmou que havia sim, assessorado o candidato vitorioso, e foi divulgado ser um dos seus principais assessores. Em maio de 2026, numa entrevista à uma rádio argentina, Cerimedo disse que era "assessor pessoal do presidente", o que foi confirmado dois meses depois pelo então ministro boliviano José Luis Lupo; Lupo afirmou que Cerimedo, embora não fosse um funcionário público, era um "assessor do presidente" e que trabalhava "diretamente com ele", sem especificar quem pagava pelos serviços do marqueteiro. Em agosto de 2026, depois da prisão de Cerimedo, o porta-voz da presidência boliviana, José Luis Gálvez, disse que o argentino era apenas um "colaborador" do presidente Paz, e que não recebia salário pela função; além disso, negou a autenticidade de um cartão de identificação encontrado com Cerimedo, onde este era qualificado como "assessor principal" do presidente. Segundo o porta-voz, o cargo não existe, e que provavelmente o próprio marqueteiro havia impresso o cartão, algo que teria que ser explicado no curso das investigações. Prova da importância de Cerimedo junto a Paz, é que ele acompanhou o presidente boliviano ao Foro Econômico Internacional América Latina e Caribe, no Panamá, e na reunião em que Paz encontrou-se com Donald Trump para discutir a criação do "Escudo das Américas". O ex-ministro Lupo também informou que Cerimedo fazia análises políticas e de redes sociais para Paz.
Campanha presidencial hondurenha em 2025 e "Hondurasgate" Cerimedo trabalhou com Andrés "Andy" Rivas, a quem em fevereiro de 2026 chamou de "sócio e amigo", na campanha do direitista Nasry "Tito" Asfura à presidência de Honduras em 2025. Cerimedo teria articulado o apoio público de Donald Trump a Nasry Asfura (que elegeu-se) e também o indulto ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, condenado nos Estados Unidos a 45 anos de prisão por narcotráfico. Andy Rivas, que reside atualmente no Paraguai, é muito próximo do presidente Santiago Peña e foi definido pela imprensa local como um "consultor de bastidores". Juntamente com Santiago Caputo, a eminência parda de Javier Milei, Rivas e Cerimedo compõe um grupo de assessores políticos latino-americanos que não possuem cargos definidos nem estão nas folhas de pagamento oficiais, mas que não obstante possuem considerável influência política e relações estreitas com a administração Trump e o governo de Israel. Em Honduras, Asfura contou com o apoio de uma edição local do La Derecha Diario (criada três meses antes da eleição presidencial), disparos em massa nos celulares apoiando os candidatos da direita e divulgando narrativas falsas, de que a esquerda estaria sendo apoiada pelo crime organizado e que pretendia eliminar a propriedade privada. Depois da eleição, o governo da esquerdista Xiomara Castro denunciou a ocorrência de irregularidades, mas os Estados Unidos pressionaram para que a vitória de Asfura fosse reconhecida. Em 2026, o agora liberto ex-presidente Juan Orlando Hernández, viu-se envolvido no assim denominado "Hondurasgate", uma trama que envolveria Estados Unidos e Israel, com apoio do governo eleito de Honduras, "para desgastar, com notícias falsas, os governos de Claudia Sheinbaum, no México, e Gustavo Petro, na Colômbia" (até a presente data, não há provas da participação de Cerimedo no ocorrido). O mesmo padrão de disseminação de notícias falsas efetivamente ocorreu na eleição colombiana, com vídeos nas redes sociais onde o candidato da esquerda, Iván Cepeda, era associado às FARC e ao crime organizado. O candidato da direita, o trumpista Abelardo de la Espriella, terminou vencendo as eleições com 49,6% dos votos.
Eleições no Peru em 2026
Em 2026, a mídia local peruana vinculou o trabalho de Cerimedo e La Derecha Diario à campanha presidencial de Keiko Fujimori. A advogada boliviana Nadia Beller declarou que Fernando Cerimedo lhe contou que mantinha contato com os assessores de Keiko Fujimori desde 2025. Entre estes assessores estavam Damián Valenzuela, com quem se encontrou em Mar-a-Lago (Estados Unidos), e Carlos Díaz-Rosillo. Cerimedo foi responsável pela criação de um portal para monitorar os votos nas eleições de 2026 e viajou ao Peru para assistir à posse de Fujimori, embora tenha tentado negar qualquer ligação.
Prisão Em 18 de agosto de 2026, Cerimedo foi preso por agentes da Força Especial de Combate ao Crime (FELCC) no Aeroporto Internacional Viru Viru, na Bolívia, por suspeita de envolvimento num ataque a tiros contra sua ex-companheira, Nadia Beller. A vítima foi hospitalizada. Após uma audiência de custódia que durou cerca de 6 horas, o juiz determinou sua prisão preventiva por 180 dias no Centro de Rehabilitación Santa Cruz "Palmasola", por haver risco de fuga e possibilidade de interferência no curso do processo criminal. Na quinta-feira (22), autoridades bolivianas encontraram uma suposta 'fazenda de bots' e o equivalente a $ 43.000 dólares em um endereços ligados ao argentino Fernando Cerimedo. Uma terceira investigação foi aberta contra Cerimedo, por supostos vínculos com o narcotráfico. Segundo o procurador Alexander Mendoza, do Ministério Público da Bolívia, “trata-se de um possível esquema de proteção que vinha sendo oferecida no município de Santa Ana, para o qual ele (Cerimedo) estaria dando cobertura. Esse é o termo que vem sendo usado em relação a pequenas aeronaves supostamente ligadas ao tráfico de substâncias controladas”. As autoridades bolivarianas suspeitam que o consultor argentino tenha ligações com os suspeitos presos, três pilotos e um policial, em maio de 2026. Na ocasião, uma operação resultou na apreensão de "narcopacotes" avaliados em R$ 150 mil.
Declarações de Beller após a tentativa de assassinato Do leito do hospital, Beller apontou Cerimedo como o responsável. Ela afirmou: "se ele mesmo não enviou os pistoleiros, sabe quem eles são". Segundo ela, Cerimedo havia organizado um encontro naquele local com indivíduos que supostamente possuíam informações sobre um assunto relacionado a Evo Morales. Ela também acusou a família do presidente Paz de negócios escusos: "estou solicitando proteção à CIDH, por favor, pois o governo é a parte mais interessada em me silenciar. Rodrigo Paz, sua esposa e a família dela estão envolvidos em negócios vultosos com corretoras — gerenciando todos os seguros de todas as empresas estatais". Por fim, Beller alegou que certas facções da polícia estavam sob o controle de Cerimedo e que havia o risco de tentarem "dar cabo dela". Em 25 de agosto de 2026, após passar por cirurgia e receber alta, a advogada concedeu entrevista por vídeo conferência à Folha ainda deitada em uma cama. Ela relatou que ao questionar Cerimedo em relação à eleição de Flávio Bolsonaro, o consultor respondeu que "estava difícil, mas que eles iriam lutar". Beller também afirmou que Eduardo Bolsonaro é um "amigo muito querido" de Cerimedo e que eles haviam se encontrado nos Estados Unidos no início de agosto.
Referências
Ligações externas Fernando Cerimedo no Instagram

