Georgette Eugénie Jeanne Méliès (Paris, 22 de março de 1888 — Courbevoie, 29 de agosto de 1930) foi uma atriz, operadora de câmera, projetora, gestora de teatro e cantora soprano francesa. Filha do pioneiro do cinema Georges Méliès, é considerada pelo historiador Jacques Malthête uma das primeiras pioneiras do cinema, por ter começado a atuar nos filmes do pai em 1896 e por ter se tornado, muito cedo, projetora e operadora de câmera — funções então inéditas para uma mulher no cinema nascente. Ao longo de sua vida, destacou-se também como pianista, soprano e voluntária de guerra, recebendo seis condecorações pelo trabalho prestado durante a Primeira Guerra Mundial.
Família e infância Georgette nasceu em 22 de março de 1888 no 10o arrondissement de Paris, filha primogênita de Georges Méliès e de Eugénie Génin, que haviam se casado em junho de 1885. Treze anos mais tarde nasceria seu único irmão, André Méliès (1901–?). Apenas três meses após o nascimento de Georgette, seu pai adquiriu o Théâtre Robert-Houdin, o famoso teatro de magia do Boulevard des Italiens que então atravessava dificuldades, e o transformou num dos espaços de entretenimento mais celebrados de Paris. Georgette cresceu, portanto, imersa no universo do espetáculo desde os primeiros anos de vida — entre os bastidores do teatro de ilusionismo do pai e, a partir de 1896, do nascente cinema que este passou a praticar. Em 27 de dezembro de 1895, véspera da primeira exibição pública do Cinematógrafo pelos Irmãos Lumière, Antoine Lumière convidou um grupo de proprietários de teatro para uma demonstração privada. Georges Méliès estava entre os convidados e ficou imediatamente fascinado pela nova invenção.
Carreira no cinema
Atriz infantil (1896–1897) Em maio de 1896, quando Georges Méliès rodou seu primeiro filme, Une partie de cartes (no 1 do catálogo Star Film), no jardim da propriedade familiar em Montreuil-sous-Bois, Georgette, então com oito anos, fez sua primeira aparição cinematográfica — uma breve cena de abertura cuidadosamente encenada. É uma das raras crianças a figurar num filme de 1896 e, por consequência, uma das mais antigas atrizes documentadas da história do cinema. Naquele mesmo verão, durante o período de férias do Théâtre Robert-Houdin — encerrado anualmente entre 14 e 31 de julho —, Méliès levou a família à costa da Normandia e filmou ao menos dezesseis curtas ao longo da viagem. Segundo fontes da época e relatos de Georges Méliès e de seu filho André, Georgette apareceu em pelo menos dois desses títulos: Un petit diable (no 12) e Bébé et Fillettes (no 14), ambos de 1896 e atualmente perdidos. No ano seguinte, atuou em Entre Calais et Douvres (1897), interpretando a filha com a boneca. No total, dos 213 filmes sobreviventes dos 520 realizados por seu pai entre 1896 e 1913, Georgette pode ser identificada com certeza em dois títulos: Une partie de cartes e Entre Calais et Douvres. Ambas as cópias estão arquivadas no BFI National Archive (Londres) e na Academy Film Archive (Los Angeles).
Fundação da Star Film e primeiros anos (1896–1900) Em 1896, ao lado de Lucien Reulos, Georges Méliès fundou a Star Film, registrada formalmente em 2 de dezembro daquele ano. Segundo fontes da época, Georgette participou ativamente do estabelecimento da companhia desde o início, colaborando nas operações do estúdio de Montreuil e do Théâtre Robert-Houdin. A Star Film viria a produzir mais de 500 títulos entre 1896 e 1913, tornando-se uma das primeiras grandes produtoras cinematográficas do mundo.
Projetora (~1900) Por volta de 1900, Georges Méliès realizou aproximadamente vinte curtas-metragens publicitários encomendados por marcas como pentes, mostarda, uísque, cerveja, graxa de sapatos, mamadeiras, inseticida, espartilhos, loção capilar, chapéus e chocolate. De acordo com as memórias do próprio Georges Méliès e com relatos de seu filho André, Georgette ficou encarregada de projetar esses filmes na janela opaca do entresol do Théâtre Robert-Houdin, voltada para o Boulevard des Italiens, de modo que transeuntes pudessem assistir às imagens publicitárias a partir da rua. Com essa função, é considerada uma das primeiras projetoras do cinema — certamente uma das primeiras mulheres a exercer o ofício de modo documentado.
Operadora de câmera (1902–1913) A partir do final de 1902, após a pirataria massiva de Viagem à Lua (1902) nos Estados Unidos, Georges Méliès adotou o sistema de filmagem simultânea com duas câmeras: um negativo era enviado ao mercado americano, onde as cópias positivas eram produzidas em Nova Iorque, protegendo os direitos do autor junto à Biblioteca do Congresso em Washington; o outro negativo era destinado ao mercado europeu. Esse sistema exigia dois operadores de câmera. Georgette Méliès passou a ser responsável por uma das câmeras, trabalhando ao lado de Lucien Tainguy — que posteriormente partiu para os Estados Unidos — e depois de Lucien Bardou. O período exato em que Georgette assumiu essa função permanece parcialmente obscuro: os documentos disponíveis não a mencionam explicitamente como operadora antes da partida de Tainguy para os Estados Unidos em 1904, e ainda não foi possível determinar com precisão quantos filmes ela operou ao longo desse intervalo. O que se sabe com segurança, a partir dos relatos de André Méliès, é que Georgette operou uma das duas câmeras Pathé nos seis últimos filmes financiados pela Pathé entre 1911 e 1913:
Les Hallucinations du baron de Münchhausen (1911) Le Vitrail diabolique (1911) À la conquête du Pôle (1911–12) Cendrillon ou la Pantoufle merveilleuse (1912) Le Chevalier des Neiges (1912) Le Voyage de la famille Bourrichon (1912–13)
Diretora do Théâtre des Variétés Artistiques (1913–1922) Em 1913, com a morte de sua mãe Eugénie Génin — que até então administrava grande parte dos negócios de Georges Méliès —, Georgette assumiu a direção do Théâtre Robert-Houdin. Antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, Georges Méliès transformou seu segundo estúdio de Montreuil num cinema-teatro local. Em outubro de 1917, após algumas reformas, o espaço passou a chamar-se Théâtre des Variétés Artistiques, onde a família Méliès produziu operetas, óperas cômicas, dramas e comédias até o início dos anos 1920, com Georges e seus filhos interpretando mais de cem papéis diferentes ao longo do período. Durante os anos de guerra, Georgette organizou espetáculos beneficentes no hospital militar n.o 6, onde também se voluntariou como enfermeira. Foi a principal animadora do serviço de assistência municipal às famílias dos soldados conhecido como Le Tricot Montreuillois, revertendo a maior parte dos ganhos dos espetáculos promovidos pela família Méliès para a causa. Por seu devotamento, recebeu seis condecorações, entre elas a medalha da Reconnaissance nationale. Destacou-se igualmente como pianista e soprano, atraindo aos domingos fiéis das vizinhas cidades de Rosny e Vincennes. Em 1922, o domínio de Montreuil e o Théâtre des Variétés Artistiques foram vendidos em decorrência da falência da Star Film. Georgette, então grávida de cinco meses, foi obrigada a deixar a propriedade.
Vida pessoal e últimos anos Em fevereiro de 1922, Georgette casou-se com Armand Fontaine (1894–1988), também conhecido artisticamente como Pierre Armand Fix, barítono. O casal passou a desenvolver carreira artística conjunta. Em 1923 nasceu sua filha, Madeleine Fontaine — que se tornaria, pelo casamento, Madeleine Malthête-Méliès (1923–2018), futura pesquisadora da obra do avô e autora de Georges Méliès l'enchanteur (2011). Durante uma tournée artística na Argélia, Georgette adoeceu gravemente. Ao retornar à França, faleceu no hospital de Courbevoie, em 29 de agosto de 1930, aos 42 anos. Sua filha Madeleine tinha então sete anos. Após a morte de Georgette, Georges Méliès acolheu a neta em sua casa no Château d'Orly, onde viveu a partir de 1932. Nos registros do Théâtre des Variétés Artistiques conservados no Centre national du cinéma et de l'image animée, Georgette aparece creditada sob os nomes artísticos de Mademoiselle Méliès, Madame Méliès-Fix (após o casamento) e Georgette Fontaine.
Legado Georgette Méliès é reconhecida pelo Women Film Pioneers Project da Universidade Columbia como uma das primeiras pioneiras do cinema, tendo exercido funções técnicas — projetora e operadora de câmera — num período em que a participação feminina nessas atividades era excepcional. A Encyclopedia.com, com base em fontes especializadas, descreve-a como possivelmente a primeira operadora de câmera mulher do mundo. Sua filha Madeleine Malthête-Méliès tornou-se a principal guardiã e divulgadora da obra de Georges Méliès ao longo do século XX. Em maio de 1961, junto com seu marido René Malthête, fundou a associação Les Amis de Georges Méliès, com o apoio de familiares e pessoas que conheceram o cineasta, dedicada a localizar, preservar e promover sua obra. Em 2004, Madeleine doou a totalidade de sua coleção ao Centre national du cinéma et de l'image animée (CNC), adquirida pelo Estado francês para o Ministério da Cultura.
Filmografia
Como atriz
Como operadora de câmera (não confirmado individualmente)
Ver também Georges Méliès Madeleine Malthête-Méliès Star Film Company Théâtre Robert-Houdin Women Film Pioneers Project Cinémathèque Méliès
Referências
Ligações externas «Georgette Méliès — Women Film Pioneers Project (Columbia University)» (em inglês) «Georgette Méliès no IMDb» (em inglês)