Abu Alcácime Amade ibne Hamedine Ataglibi (em árabe: أبو القاسم أحمد بن حمدين التغلبي; romaniz.: Abū al-Qāsim Aḥmad ibn Ḥamdīn al-Taġlibī; m. Málaga, novembro de 1151) foi um oficial jurídico (cádi) do Império Almorávida no século XII que governou autonomamente como emir de Córdova em meados dos anos 1140. Nasceu em data incerta ao longo do século XII. De origem taglibita, descendia da influente família dos Banu Hamedine de Córdova, cuja trajetória política remonta à conquista muçulmana da Península Ibérica no século VIII. Sua atuação insere-se no contexto da crise final do domínio almorávida em Alandalus e da crescente transferência de poder para autoridades urbanas locais. Exerceu o cargo de cádi de Córdova em diferentes momentos, destacando-se tanto pela intervenção em conflitos políticos internos quanto pela sua associação a decisões de caráter religioso, como a produção de uma célebre fátua coletiva em Almeria contra a destruição das obras de Algazali. Após um período de instabilidade institucional, foi eleito cádi de forma consensual em 1141–1142, num contexto de enfraquecimento progressivo da autoridade almorávida. Com o colapso gradual do poder central, Ibne Hamedine tornou-se a principal autoridade de Córdova em 1145, quando a população lhe prestou juramento de fidelidade na Grande Mesquita, acumulando funções judiciais, administrativas e militares. Adotou os títulos de miralmuminim e naceradim, aproximando-se simbolicamente do modelo de soberania das antigas taifas. Seu governo recebeu apoio de diversos líderes regionais, incluindo Ibne Uazir, senhor de Beja e Évora, bem como de outros governantes andalusinos, ao mesmo tempo em que enfrentava rivalidades internas e a pressão de forças externas como os almorávidas remanescentes e os muridines de Ibne Caci. Apesar de inicialmente consolidar sua posição em Córdova, seu domínio foi efêmero: após sucessivas intervenções militares e mudanças de alianças, foi definitivamente afastado em 1146, retirando-se para o exílio até sua morte em Málaga em 1151, pouco antes da incorporação da cidade ao Califado Almóada.
Vida
Ibne Hamedine nasceu em data incerta ao longo do século XII. De origem taglibita, descendia da influente família dos Banu Hamedine de Córdova, cuja trajetória política remonta à conquista muçulmana da Península Ibérica no século VIII. A atuação de Ibne Hamedine insere-se no contexto da crise do domínio almorávida em Alandalus e das tensões entre as autoridades religiosas tradicionais e os círculos sufistas. Ibne Hamedine exerceu o cargo de cádi de Córdova após um de seus irmãos ter ocupado a mesma função em 1134–1135, embora tenha sido posteriormente destituído pelo emir almorávida Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143). Sob ordens de Ibne Hamedine, em Almeria foi produzida uma célebre fátua coletiva condenando a destruição das obras de Algazali. Mais tarde, quando o cádi Averróis enfrentou uma revolta popular em Córdova, Ibne Hamedine desempenhou papel importante na restauração da ordem. Após um período em que a cidade permaneceu sem cádi oficial, o emir permitiu que os cordoveses escolhessem livremente o ocupante do cargo, sendo Ibne Hamedine eleito em 1141–1142. Nesses anos, agravou-se a crise do Império Almorávida, o que favoreceu a ascensão política das autoridades locais em diversas cidades andalusinas. Em Córdova, a população rebelou-se contra o governador almorávida Abu Omar Alantuni e, em 2 de março de 1145 (5 de Ramadã de 539 A.H.), todas as camadas da sociedade prestaram juramento de fidelidade a Ibne Hamedine na Grande Mesquita da cidade, acumulando funções judiciais, administrativas e militares. Ibne Hamedine adotou os títulos de miralmuminim (comandante dos muçulmanos) e naceradim (defensor da religião), os mesmos utilizados pelos soberanos almorávidas, o que o colocou em posição comparável à dos soberanos das antigas taifas. Pouco depois, setores da sociedade cordovesa apoiaram a candidatura de Zafadola, descendente da antiga dinastia húdida de Saragoça. Embora tenha sido proclamado governante e entrado em Córdova, seu governo durou apenas doze dias, sendo logo substituído novamente por Ibne Hamedine. Este reorganizou a administração, reativou a chancelaria, mobilizou tropas, nomeou funcionários e procurou obter o reconhecimento de outros governantes andalusinos. Entre aqueles que aceitaram sua autoridade encontravam-se Ibne Uazir, senhor de Beja e Évora, que chegou a cunhar moedas mencionando o nome de Ibne Hamedine, além de governantes de Granada, Xerez, Arcos e Múrcia. Com o objetivo de atrair os cordoveses para sua causa, o mádi e imame Ibne Caci, líder da revolta muridine do Garbe Alandalus, enviou tropas sob o comando de Ibne Almondir e de Ibne Alcabila para tomar a cidade. A expedição, entretanto, foi derrotada por Ibne Gania, principal líder almorávida remanescente em Alandalus e filho do falecido emir Ali ibne Iúçufe. O governo de Ibne Hamedine foi, contudo, breve. Em fins de 1145, facções cordovesas favoráveis aos almorávidas convidaram Ibne Gania a intervir na cidade. Após combates entre os dois exércitos, Ibne Gania conquistou Córdova em 28 de janeiro de 1146. Ibne Hamedine refugiou-se inicialmente em Badajoz e depois em Andújar, buscando apoio de Afonso VII de Leão e Castela (r. 1126–1157) para recuperar sua posição. Com auxílio castelhano, conseguiu reocupar Córdova em maio, mas a chegada das primeiras forças almóadas à Península Ibérica alterou rapidamente a situação política. Diante da nova conjuntura, Afonso VII chegou a um entendimento com Ibne Gania e abandonou a campanha. Privado de apoio, Ibne Hamedine retirou-se para Málaga, onde morreu em novembro de 1151, pouco antes da incorporação definitiva da cidade ao Califado Almóada.
Referências
Bibliografia

