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Terra Indígena, lavagem de dinheiro, pó de brita: entenda a operação contra garimpo ilegal que mirou Alexandre Pires
Terra Indígena, lavagem de dinheiro, pó de brita: entenda a operação contra garimpo ilegal que mirou Alexandre Pires · Imagem: Source: oglobo.globo.com

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Operação mira esquema de cassiterita — Foto: Divulgação PF
Operação mira esquema de cassiterita — Foto: Divulgação PF · Imagem: Operação mira esquema de cassiterita — Foto: Divulgação PF

Cassiterita passou a ter uma alta cotação no mercado internacional por ser a principal fonte do estanho, metal usado para semicondutores

Terra Indígena, lavagem de dinheiro, pó de brita: entenda a operação contra garimpo ilegal que mirou Alexandre Pires
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Terra Indígena, lavagem de dinheiro, pó de brita: entenda a operação contra garimpo ilegal que mirou Alexandre Pires
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Terra Indígena, lavagem de dinheiro, pó de brita: entenda a operação contra garimpo ilegal que mirou Alexandre Pires
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Alexandre Pires — Foto: Divulgação/Léo Lima

O cantor e compositor Alexandre Pires foi um dos alvos ontem da segunda etapa de uma operação da Polícia Federal que investiga um esquema de garimpo ilegal de cassiterita com o uso de contas do músico para lavagem dinheiro em um golpe onde foram enganados até a empresa compradora no exterior do minério — ela teria recebido pó de brita e areia em troca de US$ 48 milhões (quase R$ 250 milhões) que pagou adiantado. Pires era empresariado por Matheus Possebon, apontado como um dos envolvidos e irmão do acusado de chefiar o golpe, o empresário gaúcho Diego Possebon.

- Alexandre Pires, irmãos gaúchos e empresário: quem são os alvos de operação sobre garimpo ilegal

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A casa e o escritório de Pires em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, foram alvos de mandados de busca e apreensão da Justiça Federal. O artista já havia sido alvo de buscas há dois anos, na primeira fase da operação, batizada de Disco de Ouro. Por meio de seu advogado, Luiz Flávio Borges D’Urso, o cantor negou qualquer participação no esquema. Outros 11 mandados de busca e apreensão, inclusive contra os irmãos Possebon, em Porto Alegre, e 17 ordens de sequestro de bens e valores foram expedidos pela 4ª Vara da Justiça Federal, em Boa Vista para a operação. Outro alvo na capital do Rio Grande do Sul foi Carlos Konrath, presidente do Conselho de Administração da Opus Entretenimento, que atua no setor de shows.

Segundo a Polícia Federal, a cassiterita foi extraída ilegalmente entre 2021 e 2022 da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e “esquentada” por documentos forjados que apontavam como local de retirada um garimpo legal em Itaituba, no Pará. Mas imagens de satélite obtidas pela PF provaram que na área apontada no papel como origem da produção jamais houve atividade extrativa — apesar de notas fiscais apontando a retirada de mais de 110 toneladas de cassiterita.

O minério passou a ter uma alta cotação no mercado internacional por ser a principal fonte do estanho, metal usado para semicondutores, na infraestrutura de sistemas de inteligência artificial e em projetos de transição energética.

Operação mira esquema de cassiterita — Foto: Divulgação PF

Fraude após apreensão

A atuação da PF teria obrigado o grupo comandado por Matheus Possebon a um outro golpe: com a apreensão de mais de 100 toneladas de cassiterita ilegal e um quilo de ouro em Boa Vista, há quatro anos, eles ficaram sem condições de cumprir um contrato de venda do mineral a uma empresa suíça, a Gerald Metals. A solução encontrada foi enviar contêineres com areia e pó de brita, com laudos químicos falsificados.

De acordo com a investigação, foram mandados 129 contêineres a destinos asiáticos como Tailândia, China e Malásia. Destes, ao menos 109 estavam carregados com areia e brita, segundo fiscalizações feitas nos portos onde foram descarregados. Por causa desta operação, Diego Possebon é réu em uma ação na Justiça de Nova Jersey, nos Estados Unidos, por fraude na exportação do minério.

Além de investigar a retirada ilegal da cassiterita, a PF também apura o esquema de lavagem do dinheiro obtido com a venda pelos irmãos Possebon com a venda fraudulenta. Documentos sigilosos da operação obtidos pelo GLOBO apontam que a repatriação dos valores sem fiscalização seguiu dois caminhos.

Um foi por meio de um esquema de compensação informal conhecido como operação de dólar-cabo hawala. Por esse sistema com nome árabe, com origem que remonta ao comércio da Rota da Seda, na Ásia, teriam sido lavados de US$ 23 a US$ 24 milhões. O dinheiro entrou em contas nos Estados Unidos e foi compensado no Brasil por empresas de fachada, que pulverizavam o montante em reais para uma teia de laranjas e aliados, que incluíam funcionários que trabalhavam para os Possebons, parentes dos dois irmãos e advogados.

Outros US$ 26 milhões foram lavados por um empréstimo para a distribuidora Metalsur, de acordo com a investigação, que se baseou também em colaborações premiadas celebradas com a 4ª Vara Criminal Federal de Roraima. O acordo incluiu uma condição inédita na Justiça brasileira: além de depor sobr o esquema, uma colaboradora se comprometeu a dar um curso para policiais federais sobre técnicas de combate a lavagem de dinheiro e empresas fantasmas.

As provas e planilhas financeiras apreendidas apontam que depois da lavagem dos dólares, Diego controlou a distribuição de R$ 85,7 milhões, canalizando R$ 10,9 milhões para sua família, R$ 4,1 milhões para um ex-sócio de Matheus e R$ 2,53 milhões para a empresa APN Serviços Ltda, de Alexandre Pires.

Mas análises do Conselho de Atividades Financeiras (Coaf) e comprovantes reolhidos pela PF indicam que o valor sob investigação vinculado ao cantor e à sua empresa pode chegar a R$ 30 milhões, divididos entre transferências e repasses feitos pela Metalsur, empresa de comércio de aços sem relação com as atividades do cantor. Um relatório do Coaf revelou que a Metalsur repassou mais R$ 21,3 milhões para Pires e R$ 5, 3 milhões para a APN.

O procurador da República em Roraima Alisson Marugal diz que, paralelamente à investigação criminal, o Ministério Público apura a responsabilidade dos integrantes da cadeia de retirada e venda da cassiterita por danos causados aos ianomâmis durante a crise humanitária de 2020 a 2022. Somente o valor do minério e os danos ambientais, segundo estimativa técnica preliminar, superam R$ 1 bilhão, informou.

— Mas a reparação buscada vai além: alcança os impactos sobre a saúde, a cultura e a organização social das comunidades, que o Ministério Público vem documentando a partir de depoimentos colhidos nas aldeias e de dados de saúde do território — diz Marugal.

Pires nega envolvimento

Em uma nota oficial, a defesa de Alexandre Pires afirma que ele "não tem e nunca teve qualquer envolvimento com garimpo ou extração de minério, muito menos em área indígena” e que o cantor foi "tomado de surpresa" com os desdobramentos da operação, que “indevidamente envolveu seu nome”. O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso acrescentou que Pires nunca cometeu nenhuma ilegalidade, como “já está sendo devidamente demonstrado no curso das investigações”.

A defesa de Diego Possebon enviou ao g1 uma nota informando que a operação de ontem foi relacionada a fatos antigos que já foram explicados às autoridades. “O empresário gaúcho atuou regularmente como vem demonstrando quando questionado, inclusive voluntariamente, e segue à disposição para outros esclarecimentos que se façam necessários”, afirmou seu advogado, Alexandre Wunderlich.

A Opus Entretenimento informou também em um comunicado que “não foi notificada, procurada ou objeto de qualquer medida judicial” na Operação Disco de Ouro. “Foi cumprido um mandado de busca e apreensão em um endereço particular do presidente do Conselho da companhia”, afirmou a empresa. “Ele não foi detido, colaborou com a entrega dos documentos solicitados e permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários”.

A defesa de Matheus Possebon afirmou que “recebeu com surpresa” a nova fase da operação, e, como o irmão, argumentou que os fatos investigados “são antigos” e o empresário “sempre esteve à disposição das autoridades”. A nota do advogado Fábio Tofic Simantob afirma que “Matheus é empresário dos setores de música e entretenimento e nunca atuou no comércio ou na exportação de minérios”. (Colaborou Jônatas Levi)

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