Caso Orelha refere-se à morte de um cachorro comunitário chamado Orelha em 4 de janeiro de 2026, na Praia Brava, bairro no norte do município brasileiro de Florianópolis, em Santa Catarina. O cão vivia no bairro há dez anos e era cuidado espontaneamente por moradores locais. O animal foi encontrado debilitado e, posteriormente, submetido à eutanásia em uma clínica veterinária. Um laudo veterinário inicial apontou que Orelha apresentava uma lesão grave na cabeça, possivelmente causada por um objeto contundente, como um pedaço de pau ou garrafa. Após questionamentos do Ministério Público sobre a investigação da Polícia Civil, o corpo foi exumado, não sendo encontrado qualquer vestígio de lesão, inclusive a alegada perfuração óssea com objeto contundente. A Polícia Civil de Santa Catarina realizou mandados de busca e apreensão contra um grupo de adolescentes e seus responsáveis legais, e indiciou três adultos suspeitos de terem coagido uma testemunha no âmbito do inquérito. As apurações iniciais indicavam que os adolescentes também teriam tentado afogar um outro cachorro chamado Caramelo, mas a autoria foi atribuída a outros quatro menores, que foram identificados e representados por maus-tratos. Além de maus-tratos, os suspeitos de terem agredido Orelha foram investigados por outros crimes registrados no mesmo mês na Praia Brava, como furto de bebida alcoólica, danos ao patrimônio e perturbação do sossego. Um dos adolescentes apontados como autor das agressões teve a internação provisória solicitada. Em manifestação encaminhada à Justiça, o Ministério Público de Santa Catarina pediu o arquivamento total do caso, uma vez que as provas periciais mostraram que o cão e os adolescentes não estiveram juntos. A principal hipótese para a morte do animal foi um quadro grave de saúde. A juíza Vanessa Bonetti Haupenthal, da Vara da Infância do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, concordou com o pedido do MPSC e decidiu pelo arquivamento. O caso teve ampla repercussão nacional e recebeu cobertura internacional, gerando debates públicos sobre a redução da maioridade penal e penas mais duras para crimes de maus-tratos contra animais no Brasil. Ao menos dois projetos de lei intitulados "Lei Orelha" foram articulados, sendo um que endurece as penas para crimes de maus-tratos a animais em Santa Catarina e outro, proposto no Congresso Nacional, que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para incluir a grave ameaça ou violência a animal como um caso passível de internação socioeducativa. A morte do cão Orelha desencadeou protestos em diversas cidades brasileiras, mobilizando moradores, celebridades, protetores independentes, organizações não governamentais e institutos ligados à causa animal pedindo por justiça. Nas redes sociais, a mobilização ganhou visibilidade por meio da hashtag #JustiçaPorOrelha. O evento também gerou controvérsias por conta de ataques nas redes sociais contra os supostos envolvidos e seus familiares, inclusive repercutindo em pessoas sem ligação com o caso, o que foi chamado de "linchamento virtual". Analistas compararam a cobertura com o caso Escola Base, que também teve ampla repercussão e, posteriormente, os acusados foram inocentados.
Vida Orelha, também chamado de Preto, era um cão comunitário que vivia há cerca de dez anos na Praia Brava, bairro no norte de Florianópolis, Santa Catarina. Não se sabe exatamente quando nasceu, no entanto, sabe-se que o cão já participava da comunidade de Praia Brava, em Florianópolis, desde 2016. Em um vídeo gravado naquele ano e divulgado após sua morte, o cão aparece participando de uma cerimônia de casamento na areia da praia; a publicação ultrapassou seis milhões de visualizações. Descrito pelos moradores como "dócil e brincalhão", circulava livremente pelo bairro e convivia com outros cães comunitários, incluindo Pretinha (sua melhor amiga), Caramelo e Micael (seu irmão). Com o passar dos anos, esses animais, conhecidos como "Pretinhos da Brava", passaram a ser acolhidos como mascotes pelos moradores e comerciantes, que lhes ofereciam alimentação, cuidados, atenção e abrigo em casinhas improvisadas, tornando-se parte do cotidiano da região. Orelha era visto diariamente interagindo com turistas. A médica veterinária Fernanda Oliveira, que acompanhava Orelha, chamou-o de "sinônimo de alegria" e disse que ele recebia vermifugação, vacinas e consultas médicas sempre que necessário, com os moradores posteriormente arcando com os custos. Segundo ela, o cão costumava abaixar as orelhas, abanar o rabo e deitar-se quando alguém se aproximava ou demonstrava intenção de acariciá-lo. A Associação de Moradores da Praia Brava considerou-o um "símbolo simples, porém muito querido" da convivência comunitária. Uma moradora definiu Orelha e seus companheiros como "o sol da Praia Brava mesmo em dias nublados" e relatou que os cães frequentemente a acompanhavam quando ela se sentava na praia. Ela acrescentou ainda ter ouvido relatos de pessoas que passavam por dificuldades pessoais e encontravam conforto na presença dos cães durante suas visitas à praia. Após a morte de Orelha, o cão Micael foi filmado por uma equipe de reportagem deitado em um posto salva-vidas, aparentemente entristecido pela perda do companheiro. Nas imagens, o repórter afirmou que Micael "está triste porque está sentindo falta dos amigos", considerando que Orelha havia morrido e a cadela Pretinha estava internada com suspeita de doença. Na noite de 9 de fevereiro de 2026, Pretinha morreu em decorrência de uma doença renal crônica. Por conta de uma dirofilariose, infecção parasitária grave e frequentemente fatal, a cadela necessitou de acompanhamento médico desde a morte de Orelha. Ela estava internada desde o final de janeiro, e seu estado de saúde era considerado grave, pois apresentava um quadro de insuficiência renal crônica, o que a levou a realizar sessões de hemodiálise, terapia semi-intensiva, exames, medicações e monitoramento contínuo. Segundo a médica veterinária Fernanda Oliveira, Pretinha havia se tornado a "protegida" de Orelha, que passou a cuidar dela após a morte da mãe da cadela.
Suposta agressão e morte De acordo com informações que circularam nas redes sociais, na madrugada entre os dias 4 e 5 de janeiro de 2026, o cão comunitário Orelha teria sido agredido a pauladas por um grupo de quatro adolescentes. Após alguns dias desaparecido, o animal foi encontrado caído e agonizando em uma área de mata da Praia Brava, por uma de suas cuidadoras durante uma caminhada. A mulher, identificada como Fátima, recolheu Orelha e o levou a uma clínica veterinária, mas, devido à gravidade dos ferimentos, o animal foi submetido à eutanásia, morrendo no dia 5. Um laudo veterinário, divulgado em 27 de janeiro, registrou que Orelha apresentava uma lesão grave na cabeça (possivelmente causada por um pedaço de pau, garrafa ou outro objeto contundente), principalmente na face esquerda, acompanhada de inchaço intenso. O exame também apontou protusão média do olho esquerdo — quando o globo ocular se projeta para fora da órbita — além de sangramentos na boca e no nariz. Os responsáveis pelo exame citaram ainda possíveis fraturas na mandíbula e no maxilar, bem como ataxia generalizada (falta de coordenação motora), dispneia (dificuldade respiratória) e bradicardia (diminuição da frequência cardíaca abaixo do normal). Em fevereiro de 2026, uma exumação do corpo do animal foi realizada pela Polícia Científica de Santa Catarina, a pedido do Ministério Público, com o objetivo de esclarecer as circunstâncias da morte. O laudo pericial não conseguiu determinar a causa da morte e não identificou fraturas ósseas nem indícios de perfuração por objeto pontiagudo, contrariando algumas hipóteses iniciais divulgadas publicamente.
Investigação
Inquérito da Polícia Civil
A Polícia Civil do Estado de Santa Catarina tomou conhecimento do caso, investigado como maus-tratos, em 16 de janeiro de 2026, quando abriu um inquérito para apurar os fatos, com acompanhamento do Ministério Público do Estado de Santa Catarina, por meio da 10.a Promotoria de Justiça da Capital (Infância e Juventude) e a 32.a Promotoria (Meio Ambiente). De acordo com as primeiras informações repassadas pela corporação, quatro adolescentes suspeitos teriam agredido o cachorro comunitário Orelha por volta das 5h30 do dia 4 de janeiro de 2026 (BRT), e haveria vídeos circulando nas redes sociais com imagens do crime. As investigações também apontavam que o mesmo grupo teria tentado afogar um cachorro caramelo no dia 6 de janeiro, quando um dos jovens o levou no colo em direção ao mar, mas o animal conseguiu escapar; posteriormente, o cão foi adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel. Os menores também são investigados por outros atos infracionais registrados no mesmo mês na Praia Grande, como furto de bebida alcoólica, danos ao patrimônio e perturbação do sossego. Em 22 de janeiro, a juíza do caso se declarou "suspeita" para julgar os envolvidos, visto que tem relação íntima com familiares de um dos adolescentes; antes disso, a mesma havia negado a quebra do sigilo de celulares dos pais dos suspeitos. Em 26 de janeiro, a Polícia Civil deflagrou uma operação com três mandados de busca e apreensão na casa dos adolescentes e de seus responsáveis legais, além de adultos investigados por possível coação durante o andamento do processo. Na ocasião, aparelhos celulares e outros dispositivos eletrônicos foram recolhidos e apreendidos para análise. Entretanto, a Justiça de Santa Catarina negou o pedido da Polícia Civil para quebrar o sigilo dos celulares dos adolescentes investigados e de seus familiares. Em 27 de janeiro, a polícia realizou uma coletiva de imprensa anunciando que havia indiciado três adultos suspeitos (dois pais e um tio dos adolescentes) de coagir ao menos uma testemunha. O porteiro de um prédio onde os envolvidos moram, supostamente, teria sido afastado do cargo após enviar uma imagem do alegado crime em um grupo de WhatsApp. No entanto, tanto ele — em depoimento — quanto sua defesa, negaram, com o advogado afirmando que "jamais houve, por parte do porteiro, qualquer filmagem do ocorrido". Segundo o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, dois dos quatro adolescentes investigados fizeram uma viagem de formatura nos Estados Unidos dias após o suposto crime, onde visitaram a Disney, em Orlando. Gabriel informou que a viagem já estava planejada há cerca de um ano e que não tem relação direta com as investigações. Para evitar possíveis protestos, o aeroporto teve a segurança reforçada. Ao retornarem ao Brasil no dia 29, os adolescentes foram alvos de dois mandados de busca e apreensão, tiveram seus aparelhos celulares recolhidos e foram intimados a prestar depoimento. Por envolver menores de idade, a investigação ocorre em sigilo e os dados pessoais deles não foram divulgados, conforme estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA); no entanto, acabaram sendo vazados e compartilhados por diversos perfis. Em 27 de janeiro de 2026, um casal que foi confundido como os pais de um adolescente — mas que, na verdade, uma das partes seria sócia de uma das mães dos envolvidos — recebeu mais de cem ameaças de morte e registrou um boletim de ocorrência. Em 28 de janeiro, a Vara da Infância e Juventude de Florianópolis determinou que as redes sociais excluam conteúdos que exponham a identidade dos adolescentes em um prazo de até 24 horas, incluindo nome, apelido, parentesco, residência ou fotos e vídeo, atendendo à proteção prevista na Constituição Federal e no ECA. A decisão liminar vale para a Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp) e a Bytedance (dona do TikTok), e prevê multa diária em caso de descumprimento. Em 30 de janeiro, a polícia descartou a participação de um dos quatro adolescentes na morte do cão Orelha, após a apresentação de evidências pela família de que ele não estava presente no momento do alegado crime, o que foi confirmado por imagens de segurança analisadas pelos investigadores. Com isso, o adolescente deixou de ser suspeito e passou a ser considerado testemunha do caso. Em 31 de janeiro, após depoimento dos investigados, a Polícia Civil descartou a participação dos quatro adolescentes na tentativa de afogamento do cachorro Caramelo na praia, bem como a hipótese de que os maus-tratos ao cão Orelha tenham sido motivados por desafios online, devido à falta de provas. Em 3 de fevereiro, o inquérito sobre a morte de Orelha e a tentativa de afogamento do cachorro Caramelo foi concluído. Para determinar a autoria do caso Orelha, foram analisadas mais de mil horas de gravações de 14 câmeras de monitoramento, além de depoimentos de testemunhas e de suspeitos, identificação de contradições nos relatos e localização geográfica do suspeito por meio de um software francês contratado pela Polícia Civil. No caso Caramelo, quatro adolescentes foram identificados e representados por maus-tratos. A polícia esclareceu que eles não são os mesmos envolvidos na agressão ao cão Orelha, com base na análise técnica dos vídeos em que os suspeitos aparecem. A polícia solicitou a internação provisória de um adolescente apontado como autor das agressões a Orelha, com sua defesa afirmando que "informações que vieram a público dizem respeito a elementos meramente circunstanciais, que não constituem prova e não autorizam conclusões definitivas". Segundo o delegado Renan Balbino, o adolescente havia saído do condomínio na Praia Brava às 5h25 e retornado às 5h28 acompanhado de uma amiga. Em depoimento, ele afirmou ter permanecido dentro do condomínio, sem saber que a polícia possuía imagens que indicavam ao contrário (com testemunhas e outras provas reforçando isso). Sua amiga, também ouvida, contestou essa versão e negou que eles tenham permanecido no local. A delegada Mardjolli Valcadereggi acrescentou que o adolescente estava fora do Brasil e retornou no dia 29 de janeiro, quando foi abordado na chegada ao aeroporto. Nesse momento, um familiar tentou esconder um boné rosa em sua bolsa e apresentou comportamento suspeito ao afirmar que o moletom havia sido adquirido na viagem, enquanto a mala do adolescente era revistada. Essas roupas foram apreendidas, e uma delas foi comparada às imagens das câmeras de segurança, cuja análise indicou que a peça havia sido usada no dia da agressão ao cão Orelha.
Atuação do Ministério Público Em 6 de fevereiro, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) informou que pediria diligências complementares, apontando "inconsistências" e "lacunas" nos relatórios da polícia. No dia 9, o MPSC deu um prazo de 20 dias para que a Polícia Civil refizesse depoimentos e complementasse o inquérito sobre uma discussão ocorrida na portaria de um condomínio, a qual, segundo o órgão, não teria relação com a investigação de maus-tratos a animais. No dia 10, a 2.a Promotoria de Justiça solicitou novos depoimentos para apurar suspeitas de coação durante o processo de investigação da morte de Orelha, enquanto a 10.a Promotoria requereu a exumação do corpo do cão para a realização de perícia direta. A conduta do delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, tornou-se alvo de um processo preparatório instaurado pela 40.a Promotoria de MPSC, após o recebimento de diversas representações contra ele. O procedimento avaliará a necessidade da abertura de inquérito civil para eventual propositura de ações judiciais e tem como objetivo apurar se o delegado-geral, na condução e coordenação das investigações do caso, teria cometido as seguintes condutas: crime de abuso de autoridade, crime de violação de sigilo funcional e ato de improbidade administrativa. Também é investigada a possível utilização da publicidade oficial para promoção pessoal, o que, segundo o Ministério Público, ocorre quando o agente utiliza redes sociais pessoais para se apresentar como protagonista de iniciativas públicas, com linguagem elogiosa, frequência reiterada e abordagem personalizada. Após a instauração do procedimento, o delegado-geral declarou não ter sido notificado. Afirmou estar tranquilo e confiante na atuação do Ministério Público e disse que não poderia "responder por abuso de autoridade, muito menos por violação de sigilo funcional, pois não sou e nunca fui responsável pela investigação". No início de março, Ulisses Gabriel deixou o cargo para se dedicar à pré-candidatura a deputado estadual pelo Partido Liberal (PL) nas eleições de 2026. O resultado da exumação, concluído no final de fevereiro de 2026, não permitiu determinar a causa da morte do animal, não tendo sido identificadas fraturas ou outras lesões ósseas que comprovassem de forma conclusiva a ocorrência de trauma letal. O laudo pericial foi remetido ao Ministério Público de Santa Catarina, que informou que a investigação permaneceria aberta, com a continuidade das diligências e análise conjunta dos elementos periciais, testemunhais e documentais já recolhidos. O mesmo órgão destacou que a ausência de uma causa de morte definida não inviabiliza a investigação de eventuais crimes de maus-tratos, uma vez que a responsabilidade penal pode ser apurada com base no conjunto das provas disponíveis e no nexo entre os fatos investigados e o estado clínico do animal. Em 8 de maio de 2026, o MPSC submeteu ao Juízo de Direito da Vara da Infância e Juventude da Comarca de Florianópolis uma manifestação de 170 páginas, assinada por três Promotorias da Justiça, na qual pediu o arquivamento do procedimento investigatório no caso dos cães da Praia Brava. De acordo com as provas periciais, não se sustentou a tese de que o cão Orelha e o adolescente apontado como suposto autor do crime estivessem no mesmo espaço, como afirmado nos relatórios policiais. Foi constatado, também, que a principal hipótese para a morte de Orelha foi um quadro clínico grave, e não uma agressão, uma vez que possuía osteomielite, que não apresentava cortes, rasgos ou fraturas, não sendo identificados sinais evidentes de maus-tratos. Foi destacado, também, que a cadela "Pretinha", sua companheira, faleceu dias depois de doença do carrapato, o que "reforça o contexto de vulnerabilidade sanitária dos animais". As Promotorias destacaram ainda a "completa ausência de registros visuais ou testemunhais diretos" que confirmassem a presença de Orelha na Praia Brava no período em que supostamente teria sido agredido. Além disso, a versão da agressão, segundo o Ministério Público, foi baseada em comentários de terceiros, boatos e conteúdos nas redes sociais. O MP pediu o arquivamento do inquérito sobre a suposta prática de coação e descartou prática de ato infracional no caso dos cães "Caramelo".
Arquivamento do caso Em 14 de maio de 2026, a juíza Vanessa Bonetti Haupenthal, da Vara da Infância do Tribunal de Justiça do Estado, decidiu pelo arquivamento das investigações por não haver elementos suficientes para comprovar os atos infracionais em apuração. A magistrada também determinou a retirada das restrições de viagem do adolescente investigado e ordenou que a Polícia Federal devolva seu passaporte, além de negar o pedido de internação provisória do jovem.
Repercussão
Nacional A morte do cão comunitário Orelha teve repercussão nacional, mobilizando moradores, celebridades, protetores independentes, organizações não governamentais e institutos ligados à causa animal, que passaram a cobrar justiça. A mobilização também ganhou visibilidade nas redes sociais por meio da hashtag #JustiçaPorOrelha. Na Praia Brava, os moradores realizaram a primeira mobilização pública no dia 17 de janeiro de 2026, e, no dia 24, um novo protesto reuniu dezenas de pessoas acompanhadas de seus cães com camisas personalizadas, cartazes e orações em homenagem a Orelha, pedindo respostas à Polícia Civil de Santa Catarina, responsável pela investigação, e punição mais rigorosa aos autores do crime. Ainda em Florianópolis, centenas de manifestantes protestaram em frente ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina no dia 29. Outros protestos foram marcados em diversas capitais brasileiras, como Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Recife, Belo Horizonte, Vitória, Manaus, Belém, Rio Branco, Fortaleza, além de outras cidades, como São José (SC), Sorocaba (SP), Campinas (SP), São José do Rio Preto (SP), Araçatuba (SP), Blumenau (SC) e Dourados (MS), com a maioria ocorrendo no dia 1 de fevereiro. O Google Brasil registrou mais de cem mil buscas sobre a morte do cão Orelha entre os dias 26 e 28 de janeiro, liderando entre os termos mais pesquisados no período. Dois abaixo-assinados em uma plataforma digital foram criados, pedindo punições mais severas para crimes de crueldade contra animais e a responsabilização dos agressores, que, juntos, somaram mais de 170 mil assinaturas. No X (antigo Twitter), usuários divulgaram uma campanha pela federalização do caso Orelha, que chegou a figurar entre os 20 assuntos mais comentados da plataforma. O caso gerou uma reação pública incomum no debate brasileiro, fazendo com que a esquerda e a direita se unissem para cobrar respostas das autoridades e punição aos envolvidos, o que fugiria da lógica da polarização. Entre os diversos parlamentares que se manifestaram estão os senadores Fabiano Contarato (PT-ES) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e os deputados Erika Hilton (PSOL-SP), Kim Kataguiri (União-SP), Bruno Lima (PP-SP), Nikolas Ferreira (PL-MG) e Julia Zanatta (PL-SC).
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, declarou que "as provas já estão no processo e me embrulharam o estômago". O prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, afirmou que toda a população da cidade está "impactada" com o crime. A primeira-dama Janja Lula da Silva manifestou pesar pela morte de Orelha, o que lhe causou "tristeza e indignação". A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva repudiou a violência contra o animal, classificando-o como "mais uma vítima da violência contra animais". A cantora Ana Castela ressaltou que "matar cachorro é crime" e prestou apoio a Orelha e a outros animais vítimas de violência. O ator e comediante Rafael Portugal publicou um vídeo no qual classificou o ataque contra o animal como "pura maldade". As atrizes Heloísa Périssé e Paula Burlamaqui lamentaram a morte de Orelha e cobraram ações das autoridades. A ativista Luisa Mell afirmou ter tido acesso ao laudo pericial e declarou que a situação poderia ser pior do que o inicialmente divulgado. O ator e dublador Tadeu Mello declarou estar "muito triste com essa crueldade". A apresentadora Ana Maria Braga abriu o Mais Você em 27 de janeiro de 2026 visivelmente emocionada, pedindo justiça por Orelha, e informou ter assinado um abaixo-assinado em favor da punição dos supostos agressores. O influenciador Felca se posicionou em defesa dos animais ao citar o caso da morte de Orelha, afirmando que a violência foi marcada pela ausência total de empatia e anunciou o lançamento de um abaixo-assinado pela criação de um disque-denúncia para casos de maus-tratos a animais, a fim de que, segundo ele, "o cachorro Orelha seja eternizado como o cachorrinho que salvou milhões de outros". Durante uma apresentação ao vivo no Planeta Atlântida, o cantor e compositor gaúcho Armandinho vestiu uma camiseta com uma estampa do Orelha, imagem gerada por inteligência artificial que repercutiu na imprensa.
Internacional O ator americano Paul Wesley, de The Vampire Diaries, publicou em seus stories no Instagram uma imagem pedindo justiça pelo cão Orelha. O músico Steven Adler, ex-baterista da banda Guns N' Roses, também publicou nas redes sociais uma imagem pedindo justiça pelo cão, na qual segura um cartaz com a frase "Justica por Orelha". A imprensa internacional repercutiu o caso, especialmente em veículos voltados ao público hispanofalante. O portal argentino Infobae ressaltou que o episódio uniu forças políticas de diferentes espectros, algo considerado incomum em um país polarizado. A France 24 mencionou a investigação policial envolvendo adolescentes e a mobilização nacional por justiça, além da reação da primeira-dama Janja. O jornal argentino La Nación destacou a indignação no Brasil e o andamento das investigações, enquanto a revista colombiana Semana enfatizou a brutalidade do crime e a comoção nacional que ultrapassou o âmbito local. O El País descreveu a morte do cão Orelha como o estopim de uma grande onda de fúria, alimentada pela sensação de impunidade, que trouxe de volta ao debate público o caso do indígena Galdino Pataxó, queimado vivo em Brasília no ano de 1997. À época, dois dos cinco jovens envolvidos eram filhos de juízes, e atualmente todos ocupam cargos públicos.
Consequências
Homenagens A casinha onde Orelha dormia foi transformada em um memorial por iniciativa dos moradores locais — responsáveis também pela construção das casinhas para os cães comunitários Orelha, Pretinha e Caramelo. O local tornou-se ponto de manifestações que pediam justiça pelo caso e passou a receber homenagens espontâneas de diversas partes do país, incluindo flores, desenhos, balões, bilhetes, um brinquedo de pelúcia e um mural de madeira que retrata o cão como um anjo. Em 28 de janeiro de 2026, o artista visual Clayton Babuíno criou um desenho de 40 metros no estilo land art na areia da Praia da Galheta, em Florianópolis, em homenagem ao cão Orelha. Segundo o artista, o desenho levou cerca de duas horas e meia para ser concluído, e ele afirmou ter ficado satisfeito com a repercussão positiva, relatando ter recebido mensagens solicitando autorização para compartilhar as imagens. Em 3 de fevereiro, a editora Bailer Books anunciou o lançamento de um livro colaborativo, previsto para março de 2026, que narrará a história de Orelha em primeira pessoa por meio de um escritor-fantasma (ghostwriter), com base em relatos, memórias e imagens de pessoas que conviveram com o cão. Segundo a editora, todo o lucro obtido será destinado ao projeto Cãotinho do Amor, em apoio à causa animal. Em 16 de fevereiro, a Mocidade Independente de Padre Miguel homenageou o cão Orelha no desfile do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro de 2026, realizado no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, em meio ao enredo dedicado à cantora Rita Lee, defensora dos direitos dos animais. A homenagem incluiu uma alegoria com cães caramelos usando óculos coloridos, todos identificados com plaquinhas com o nome "Orelha". A escola também decidiu, em acordo com a família de Rita Lee, não usar penas de origem animal em fantasias e alegorias. A ativista Luisa Mell, uma das participantes do desfile, comentou: "Para quem achou que o Carnaval ia fazer o povo esquecer do Orelha, ele tem um carro alegórico!".
Medidas legislativas Em 22 de janeiro, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, sancionou a lei que instituiu a Política Estadual de Proteção e Reconhecimento do Cão e Gato Comunitário, após a repercussão do caso. A lei reconhece oficialmente a existência de cães e gatos comunitários que ocupam espaços públicos e mantêm vínculos estáveis com comunidades locais, estabelece que a responsabilidade legal por esses animais cabe ao poder público e proíbe sua remoção ou transferência sem justificativa técnica e comunicação prévia aos cuidadores. Em 26 de janeiro, o deputado estadual Mário Motta (PSD-SC) propôs um projeto de lei intitulado "Lei Orelha", que endurece as penas para crimes de maus-tratos a animais em Santa Catarina, prevendo que pais ou responsáveis também sejam ser responsabilizados administrativamente quando a infração for praticada por menores sob sua tutela. No final de janeiro, o senador Humberto Costa (PT-PE) anunciou que pediria urgência na votação do projeto de lei n.o 4.363/2025, que aumenta as penas previstas na Lei de Crimes Ambientais para maus-tratos a animais. Os deputados Capitão Alden (PL-BA) e Rosana Valle (PL-SP) articulam projetos de lei em resposta ao caso. Em 6 de fevereiro, o senador Fabiano Contarato (PT-ES) propôs o PL 372/2026, igualmente intitulado "Lei Orelha", que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para incluir como um caso de internação em unidades socioeducativas o "ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência a pessoa ou a animal". No dia 9, a urgência do projeto de lei foi aprovada no plenário da Câmara dos Deputados. O prefeito de Pescaria Brava, Luiz Henrique Castro de Souza, anunciou a criação de um projeto de lei para alterar o nome do Centro de Saúde e Bem-Estar Animal para Centro de Saúde Animal Cão Orelha, com votação prevista para a segunda metade de fevereiro, após o retorno das atividades da Câmara Municipal de Pescaria Brava. Segundo a diretora do centro, Patrícia Floriano, a renomeação seria, além de uma homenagem, um lembrete de que casos de maus-tratos não seriam tolerados no município e buscaria conscientizar a população sobre a proteção aos cães comunitários.
Internet A repercussão do Caso Orelha nas redes sociais gerou questionamentos por conta de ataques contra os supostos envolvidos na agressão, seus familiares, empresas e mesmo pessoas sem qualquer ligação com o caso. Em janeiro, um casal de Santa Catarina registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil contra mais de 100 perfis após ser confundido com os pais de um dos jovens. Pessoas com o mesmo sobrenome de um dos investigados também receberam ataques. Ao menos cinco famílias sem qualquer relação com os eventos receberam de xingamentos a ameaças de morte. Mesmo após deixar de ser suspeito no caso, um dos jovens e seus familiares seguiram sendo atacados nas redes. A família relatou precisar ter contratado segurança particular em razão das ameaças e receber acompanhamento psicológico. Em entrevista à Rede Record, após o arquivamento do inquérito, a mãe de um dos jovens contou que recebia mensagens como "eu espero que seu filho se suicide", e que teve dados como endereço, placas de carros e telefones expostos. Ainda em janeiro, a defesa de dois dos adolescentes conseguiram na Justiça a remoção de postagens que identificassem os investigados, bem como a adoção de medidas para impedir a republicação desse tipo de conteúdo. Por serem menores de idade, suas imagens não poderiam ser divulgadas nas redes. O Ministério Público de Santa Catarina pediu uma apuração específica para avaliar a prática de ilícitos relacionados à eventual monetização de conteúdos falsos relacionados ao episódio, no que chamou de "linchamento virtual" dos adolescentes. Em editorial, o jornal O Estado de São Paulo considerou o caso Orelha como "exemplar" de como funciona o "tribunal da internet", afirmando que os pais dos adolescentes acusados "viveram o inferno das redes sociais, sofrendo todo tipo de ameaça, sem terem como se defender". Anik Suzuki, do Conselho Editorial do Grupo RBS, disse que mesmo que inocentados formalmente, "os jovens e suas famílias permanecerão associados a um dos casos de maior comoção digital recente do país".
Críticas A atuação de agentes públicos e a cobertura do caso pela imprensa também receberam críticas. O então delegado-geral da Polícia Civil, Ulisses Gabriel, foi acusado de usar a investigação para promoção política — ele deixou o cargo para concorrer a deputado estadual. O professor Carlos Eduardo Lins da Silva, da Universidade de São Paulo, lembrou do caso da Escola Base, que também foi comparado à repercussão da morte de Orelha pela colunista Thais Oyama, no jornal O Globo.
Ver também Caso Manchinha Caso da cadela Preta Caso Costela Caso Bruce Caso Nina Caso Sansão
Referências