Maria Carolina Corcoroca de Sousa, também conhecida pelo pseudônimo de Semíramis, (Desterro, 12 de abril de 1856 — Desterro, 25 de março de 1910), foi uma pianista e poeta brasileira.
Vida pessoal Foi a quarta dos seis filhos de Joaquim José de Sousa Corcoroca e de Maria Angélica de Sousa Corcoroca. Nos primeiros meses de vida, em 31 de maio de 1856, foi batizada na Igreja Matriz de Desterro, pelo padre Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva. Teve como padrinhos Joaquim Salomé Ramos de Azevedo e Mariana Justina Ramos de Azevedo. Aos 18 anos, na mesma igreja, casou-se com o maestro e compositor José Brazilício de Sousa, autor do Hino do Estado de Santa Catarina. O casamento ocorreu às 14 horas do dia 10 de outubro de 1874. Com ele, teve nove filhos.
Casamento e família
José Brazilício, embora pernambucano, descendia de uma família nativa da Província de Santa Catarina, proprietária de terras na região Sul da Ilha, concedidas por sesmarias, e outras áreas da cidade. Em Nossa Senhora do Desterro, desde os dois anos de idade, cresceu na casa de no 35 da Rua Fernando Machado. A família de Brazilício possuía uma chácara onde hoje se localiza a Praça Getúlio Vargas, além de residências na Esteves Júnior. Durante caminhadas pela região central, acredita-se que tenha se encantado por Maria Carolina Corcoroca, que residia em uma das esquinas da Praça XV de Novembro, onde hoje funciona agência do Banco do Brasil, logo ao lado da Catedral Metropolitana, onde ocorreu seu batismo e posterior casamento. Em comemoração aos quinze anos de Maria Carolina, antes da formalização do namoro, Brazilício lhe compôs a valsa 12 de Abril.
Descrito como um relacionamento harmonioso, o casal teve nove filhos ao longo de trinta e seis anos de união: Alypio (falecido aos seis meses), Baselissa, José Alypio, Maria Carolina (falecida aos dois anos), José Brazilício, Álvaro, Maria Carolina, Enéas e Clara Rosaleta.Entre filhos, Alypio Sousa foi o que seguiu a influência do pai. Idealista entusiasta, envolveu-se na Revolução Federalista e foi condenado ao massacre da Fortaleza de Anhatomirim, conseguindo fugir com auxílio de amigos e da influência militar do avô. Álvaro Sousa dedicou-se exclusivamente à música, atuando como compositor e professor de instrumentos, especialmente piano e flauta. Recebeu elogios de Patápio Silva, um dos nomes mais importantes da música brasileira à época. Foi também um dos fundadores da Sociedade Musical Amor à Arte, ainda existente em Florianópolis, além de pai do escritor e musicista Abelardo Sousa. Clara Rosaleta, conhecida como Catita, tornou-se exímia pianista, a exemplo de sua mãe.
Morte A poeta faleceu em 25 de março de 1910, em sua residência na rua Álvaro de Carvalho, no 14. A causa da sua morte, sepse, foi atestada pelo médico Antônio Vicente Bulcão Viana.O pseudônimo Semíramis, utilizado por Maria Carolina em seus escritos, permaneceu em segredo até a sua morte, sendo revelado pelo marido em seu velório: “É, meus amigos, lá se foi a nossa Semíramis”. Encerrando, assim, o mistério que intrigava o mundo literário catarinense. José Brazilício morreu cinco dias depois de Corcoroca. Segundo relato do desembargador Norberto Ungarctti, pessoas próximas à família afirmavam que, após a morte de Maria Carolina, Brazilício teria se exposto deliberadamente ao contato com a infecção, vindo a falecer da mesma enfermidade. Esses testemunhos são reforçados por declarações segundo as quais o médico Bulcão Viana, responsável pelo atendimento de ambos, teria advertido repetidas vezes sobre os riscos do contato direto ao trocar os curativos das ulcerações cutâneas de Maria Carolina — circunstância que se acredita ter ocasionado a infecção de Brazilício. Maria Carolina foi sepultada no Cemitério Público Municipal, ativo 1841 e 1923, localizado onde se encontra o atual Parque da Luz, à cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz. Posteriormente, o cemitério foi desativado, e os sepultamentos transferidos para o atual Cemitério São Francisco de Assis.
Vida pública
Conciliando a tranquilidade do convívio familiar com as exigências da vida social, Maria Carolina e seu esposo costumavam promover saraus, frequentados por poetas e músicos interessados em apresentar e discutir suas produções artísticas. Um desses encontros foi posteriormente descrito pelo neto do casal, o escritor Abelardo Sousa. Datado de 4 de fevereiro de 1890, o relato destaca o contraste entre os sons da natureza ao anoitecer — como rãs e grilos — e a circulação de carruagens puxadas por cavalos em ruas ainda hoje conservam os mesmos nomes na cidade de Florianópolis, partindo do Largo do Palácio Cruz e Sousa e seguindo pelas ruas Tenente Silveira e Álvaro de Carvalho. Na residência de número 14, iluminada por lampiões, candelabros e velas, a reunião é descrita como uma celebração para que o maestro José Brazilício executasse o então Hino de Santa Catarina, de sua autoria.
Aproximação com Cruz e Sousa
A Fundação Casa de Rui Barbosa preserva um telegrama enviado a Cruz e Sousa em 18 de agosto de 1891, no qual se informava que sua mãe se encontrava enferma. Embora o documento não traga identificação explícita de autoria, acredita-se que a assinatura “Corcoroca” refere-se a Maria Carolina de Sousa, apontando-a como autora da correspondência. Maria Carolina e o poeta Cruz e Sousa viveram no mesmo período nas imediações da Praça XV, o que pode ter possibilidade o contato entre eles.
Literatura Sob o pseudônimo de Semíramis, Maria Carolina publicou seus poemas, muitos deles dispersos nas páginas do jornal Sul-Americano. Acredita-se que o uso do pseudônimo se devesse ao fato de ser esposa de um professor reconhecido, músico de destaque na cidade e fundador do jornal. Em 1872, Desterro, a atual Florianópolis, registrava 27.708 habitantes, sendo uma cidade pouco povoada, majoritariamente pobre e analfabeta. A atuação de uma mulher nesse espaço configurava, à época, uma exceção. Esse caráter excepcional é reforçado pelo contexto da província de Santa Catarina no século XIX, marcada por relativo isolamento em relação aos principais centros culturais do país. A capital, situada na Ilha de Santa Catarina e ainda sem ligações terrestres diretas, apresentava circulação limitada de pessoas e ideias, o que contribuiu para a escassez de nomes femininos de destaque nas letras e nas artes catarinenses quando comparada a outras províncias, como as do Nordeste.
Sul-Americano e as Beletrices José Brazilício fundou o jornal Sul-Americano, que circulou entre setembro de 1900 e agosto de 1902, embora haja registros que indiquem o início de sua publicação em 1899. A criação do periódico esteve associada, segundo o próprio Brazilício, ao seu interesse pela astronomia, tema que considerava inadequadamente tratado no espaço reduzido dos jornais então existentes, levando-o a conceber o Sul-Americano como um veículo de caráter pedagógico. Foi nesse jornal que Maria Carolina publicou seus escritos sob o pseudônimo de Semíramis. O jornal também deu nome ao movimento literário formado por Maria Carolina Corcoroca de Sousa (Semíramis) junto a Delminda da Silveira (Brasília da Silva), conhecido como as Beletrices. Esse movimento caracterizou-se pelo diálogo poético e pelas dedicatórias trocadas entre ambas nas páginas do periódico. Os poemas de Corcoroca eram, em sua maioria, dedicados a Brasília Silva, mas também a Simonides, nome literário que, segundo indícios, datas e comentários de Brazilício, possivelmente se referia a Firmino Costa, amigo do casal. Esse diálogo poético, estruturado por meio de dedicatórias e respostas em edições sucessivas do jornal, ocorria tanto com Simonides quanto com Brasília, prática que deu origem ao movimento das Beletrices.. Há ainda registros de que Maria Carolina teria mantido esse mesmo jogo literário com o próprio marido.
Vivências transformadas em poemas
Em parte de sua produção literária, Corcoroca converteu experiências pessoais em poemas, nos quais registrou aspectos de sua própria vivência. A leitura desses textos permite reconstruir episódios de sua trajetória, como viagens realizadas a bordo do navio a vapor Meteoro, mencionadas em títulos como “A bordo do paquete Meteoro, 24 de agosto de 1900, às 11:30 horas da noite”, bem como a chegada ao Rio de Janeiro, evocada no poema “Baía de Guanabara”. A sequência desses registros prossegue com referências a Santos, datadas de 11 de setembro de 1900, no poema “Comparando...”, e com o texto intitulado “Saudade”. Conjuntamente, esses poemas funcionam também como documentação histórica, pois corroboram que Maria Carolina esteve a bordo do vapor que atracou no Rio de Janeiro em 1o de setembro de 1900. O Meteoro (RV 89), proveniente de Montevidéu, realizou escala em Desterro antes de seguir viagem.
Obra Toda a sua produção foi publicada no jornal Sul-Americano, não havendo edições em livro. Seus escritos transitam entre poemas — em sua maioria glosas e motes ao gosto da época —, versos dedicados a outros poetas, além de charadas e logogrifos. Em seus textos, observa-se a recorrência de reflexões sobre os direitos das mulheres, a educação e a relação entre gênero e o direito de escrever e publicar, temas que atravessam seus poemas e excertos preservados. Sua poesia aproxima-se, em muitos momentos, do Romantismo, ao mesmo tempo em que apresenta influência do Parnasianismo, com forte presença de elementos descritivos. Os motes — gênero poético de origem popular — cultivado no século XVI, esquecido no século XVII e retomado na segunda metade do século XIX, sobretudo no Brasil e nos jornais, constituíram o gênero favorito de Maria Carolina, caracterizando-se pelo cunho popular e andamento rápido.
Lista de publicações Lista de poemas publicados no jornal Sul-Americano.
“Baía de Guanabara” (1900) "Mote" (Sul-Americano, 29 jul. 1900, a. 2, n. 41.) "Glosa" (s.d.) "À Belinha Duarte e Silva" (Sul-Americano, 5 ago. 1900, a. 2, n. 42.) "A Simonides" (Sul-Americano,12 ago. 1900, a.2, n. 43.) "Ao erudito senhor Eduardo Nunes Pires" (Sul-Americano, 26 ago. 1900, a.2, n. 45.) "Comparando..." (Sul-Americano, 7 out. 1900, a.2, n. 51.) "Mote" (Sul-Americano, 2 dez. 1900, a.2, n. 59.) "Ao distinto patrício e bom amigo Dr. Duarte Schutel" (Sul-Americano, 9 dez. 1900, a.2, n .60.) "Salve! Século XX!" (Sul-Americano, 6 jan 1901, a.3, n. 63.) "À emérita colega Brasília Silva" (Sul-Americano, 13 jan 1901, a.3, n. 65.) "Mote" (O Sul-Americano, 20 jan. 1901, a.3, n. 66.) "Mote" (O Sul-Americano, 27 jan 1901, a.3, n. 67.)
Referências